Do início – a busca.

Tela: Camille Pissaro - 1871.

Através daquela janela incorporavam-se ao vidro as gotas da chuva incessante, enquanto ele tentava identificar as razões que o haviam conduzido até ali, desoladamente, após todos esses anos.

O balanço do trem era tão forte que parecia fazer com que as árvores tremessem lá fora, com certo pavor.

Fazia algum tempo que ele não a via, nem tinha qualquer notícia dela. De certo modo, um tempo considerável. Em suas veias corria um sangue tal qual a lava de um vulcão que há muito estaria adormecido e que agora despertara daquela constante inércia.

– Como estaria Lea após 5 anos de ausência – pensara ele. Como reagiria aquela que ele guardara em seus pensamentos como uma jóia rara, intocável, inquebrável, tão sutil, após tantos anos de silêncio?

Percebera então, subitamente, o que  o fazia tremer de verdade. Não era o frio daquela pacata cidade nublada, mas sim a eterna dúvida carregada no peito que o assombrara por muitas noites. Era, na verdade, o iminente medo da rejeição.

Era quase insuportável para ele sequer imaginar a idéia, ou ao menos a possibilidade, de aquela mesma mulher, que por muito tempo iluminara seus dias e lhe fizera sentir como um novo homem, pudesse simplesmente virar-lhe as costas, tratando-o como um indivíduo qualquer, um zé ninguém em meio a tantos outros.

Cogitar tal hipótese o fazia queimar por dentro. Engolia à seco as palavras que vinham a sua garganta, impronunciáveis, enquanto olhava a paisagem verde que passava despercebida pelo tom cinza da estação; enquanto observava aquelas matas vazias, quase escondidas pelas águas que lavavam a vida naquele momento.

Eis que num estalo ele percebera que em um espaço de três horas sequer havia se movido. Paralisado, estático… ele pensara que talvez, apesar  da longa distância percorrida por aqueles trilhos infinitos, nunca deixara de fato seu mundo particular de sonhos e devaneios sem fim. Na verdade, ele o carregaria para sempre, onde quer que fosse.

*

O cheiro do café invadira os corredores dos vagões e sem perceber ele interrompera suas lembranças, como se pausasse a alma que estava apenas em busca de um pouco de paz.

Naquele momento, conseguira pronunciar algumas poucas palavras ao homem que se aproximava à sua mesa:

“- Para mim um amargo, sem açúcar, por favor.”

Nada será como antes

Inacabado

[mas um dia escreverei a continuação…]

*Leli

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Frederico Arêde
    ago 13, 2010 @ 00:44:24

    Escreva sim ^^

    Responder

  2. Candé
    ago 21, 2010 @ 23:05:56

    Gosto da sua narrativa…

    Responder

  3. dacarpe
    ago 27, 2010 @ 17:26:44

    Por algum motivo este seu texto me fez escrever este meu: http://dacarpe.wordpress.com/2010/08/27/dalva/

    Valeu pelo comentário e pela visita.

    Seu blog já está devidamente citado no meu também.

    Bjks

    Responder

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